Para quem nunca brincou de amarelinha.

Quem nunca teve um dedo
feito torrada com queijo
queimado na pontinha
e curado com um beijo?

E nunca maldisse os pais
correndo pela vizinhança
mas voltando com os temporais?

Há quem chamasse os amigos
só pra ver o carrinho novo
Que você tanto pediu
E ganhou do Nono.

E quem quisesse muito um doce
daqueles bem coloridos
mas somente o que o pai trouxe
foram remédios e comprimidos!

Esquecer como segura a caneta
rolar no chão e chorar sentido.
Sentir medo da borboleta
que pousou calma no teu amigo.

Um vestido amarelo querer
com uma fita que dava a volta
mas só tinha graça de ter
se fosse feito pela avó que tricota.

Fazer chantagem emocional
não comer pão integral
Reclamar da salada
E vender os dentes para a fada.

Até perder o sentido, um dia
aquela sapequice toda
e sair pra não voltar no domingo
sem sequer um choramingo
de saudade do quartinho.

Até não ter mais cadeiras
com cabana no meio da sala
e sentir vontade de fazer a mala
enquanto o passado incendeia.

Você aprende a olhar as horas
e descobre que tem olheiras
cansado de escutar histórias
deixa de lado as brincadeiras.

A criança fica lá, bicuda:
Como uma barra que pisca
sem palavra pra ser escrita
enquanto enrugado você fica.

Às vezes é bom usar meia com listra
brigar que está indo ao dentista
mas ficar feliz pelo pirulito!

Cada beijo carecendo pontinha
e por sorriso uma piscadinha
nariz com dedo de farinha.
E lá no fundo, sendo raso
ainda tem cartão dobrado
assinado: com amor
do contador do teu passado.

Notas de rodapé: Nono é como chamam avô em Italiano. É como eu chamo o meu Nono.

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Ando.

Ando. Ando pelo mar de nuvens, ando pela areia salgada, ando pelas folhas de papel, ando pelas pedras do deserto, ando sentindo o gelo no rosto, ando olhando para os pés, ando vendo coisas, ando chorando por nada, ando andando sem destino, ando ouvindo muita música, ando escrevendo muitas cartas, ando dizendo o que não devo, ando dizendo o que preciso, ando escondendo meus dedinhos. Ando. Ando jogando conversa fora, ando queimando meu passado, ando confusa demais da conta, ando curtindo uma noite, ando sentindo falta de alguém, ando tentando escrever, ando decifrando o que sinto, ando tentando ser um livro. Ando. Ando comendo muita pipoca, ando esquecendo das coisas, ando dormindo pouco, ando dormindo muito, ando fazendo besteira, ando vendo muitos filmes, ando com medo de olhar pro espelho, ando sonhando coisas estranhas, ando tocando muito violão, ando querendo fazer outra tatuagem, ando viciada em MM’s branco, ando nem ligando tanto. Ando. Ando de um lado para o outro, ando meio sem paciência, ando esperando demais, ando sem medo, ando vendo muito as estrelas, ando pensando em quem não devo. Ando. Ando criando muitos mundos, ando correndo da saída, ando desiludida, ando sabendo das coisas, ando com muita preguiça, ando fazendo mil planos, ando dizendo pouco Eu te amo.
Porque tenho andando demais, amado de menos. Sem nem saber que meu coração pertence a alguém que não existe. Alguém que como eu, anda. Anda sem querer impressionar, anda se fazendo de música, anda escrevendo poesia, anda sem querer andar. Mas anda. Anda para em algum lugar ficar, dentro de um daqueles mundos que ando criando.
Porque eu só ando. Ando andado demais. Amado de menos. Ando rimando só pra contrariar.
É porque eu amo. É porque eu ando. É porque eu amo andar. Como pode ser pobre rimar o termo amar? Que se dane os verbos e os substantivos! Amor, dor, ventilador, horror… Amar, dar, chorar, matar… Rimo pano com encanto, rato com bafo, loucura com madruga, time com bife, cenoura com louça, livro com minto, Ricardo com lábio molhado, bolsa com trouxa, e tantas outras!
Eu ando. Andava e andarei. Eu amo. Amava e amarei. Só por favor, não conte ao frei que eu rimarei as rimas do rei. Porque rimar, esqueci. Amar desaprendi. Só andar é que eu consegui.

(Este Lado Para Cima)

Vai
Vai, mas guarde as cartas nos sapatos
Que tanto fiz para perder, debaixo da cama
E não consegui

Vai e enquanto ainda vai,
tropeçe uma vez ou duas
faça feliz minha vaidade
em ver-te cambalear
Deixe eu pensar que é falta de mim

Vai e me arranque os dedos
Um por um
Das costas dos seus braços finos
Me belisque se necessário
Pise no solado
Do sapato outra vez

Mas vai
Vai como veio, solto
Ou como fica ainda encolhido
Na trincheira do meu portão
Que range e rosna, coçando
As suas pulgas e percevejos

Vai
E compre CDs melhores
Para suas próximas cônjuges
(não as chame assim)
Mas continue criando gírias
E nunca deixa puberdade alguma te mudar a voz

Vai na chuva e sem correr
Faça o favor de evitar as curvas
Pra que eu sempre possa lembrar
De que você está me esquecendo

Vai porque o relógio desfiou os ponteiros
Pra dar logo a sua hora
E eu não sei costurar

Anda, vai, não se demore com despedidas
Não quero olhar no calendário
Que dia é hoje

Vai!
Não sei manter a postura
Caminho chutando latas
Procurando pedras
Enlameadas
Com marcas de sapatos
Que por pouco você não acha
Debaixo da cama
Cheia de quinas e restos de cartas.

Bom dia

Lembra de como foi o verão passado? Aquela confusão de sentimentos, aquele vai ou não vai. Vontade de correr atrás, te prender contra a parede e perguntar “qual é a tua?” Você me deixava louca. Tinha horas que me arrepiava, me roubava um sorriso sem mais nem menos. Outras, me fazia querer arrancar os cabelos. As meninas que tinham que me aturar todos os dias, falando sobre você, sobre nós… fazendo mil planos, às vezes suspirando, tudo por de baixo do pano. Não era pra rimar.

Foi tudo como um conto de fadas. Você era o príncipe, mas eu não era a princesa. Desajeitada, nunca conseguiria aguentar uma só noite com um sapatinho de cristal. Mas com a bela adormecida eu já combino mais, só falta a meiguisse de cantarolar para os pássaros!

Sabe, agora estou com frio. É assim que você me deixa quando vai embora. Tenho medo que a chuva me leve, que a correnteza me arraste, que eu me afunde na areia. Tudo isso porque não tenho você. Daqui a pouco o sol nasce, e eu não vou poder dormir, me tiras o sono. Eu fico lá, rolando e pensando, pensando, pensando. Pensando sobre você, sobre nós… relembrando os mil planos, toda hora suspirando, e dessa vez, sem panos. Não temos muito tempo até os passarinhos começarem a cantar, mas prometa que antes do dia acabar, tudo aquilo que nós vivemos, vai voltar?

Juro que não era pra rimar.

Bom dia!

Depois do dia

Que noite fria
E abafada, pertinente ao meu sossego
Se me vejo, não percebo o que sustente
Mas prometi?
Sou contingente
Vertente do aparente
Ai, que me corrompe esse caminho que tomamos
Não sei aonde
Ainda em frente?
Perdi sua mão e seus carinhos num só dia
Talvez em anos
Mas eu te amo
Te amei por mais verões que primaveras
Mais que essa gente
Só não tive os colhões de ser valente
A noite é fria, mas sou mesmo uma avarenta
Vivo no passo de alcançar o não-agora
Há quem aguente?
Perdão, eu te pedi, eu prometi, eu fiz de novo…
Passei adiante as sementes que chorei
Só não passei
Não te esqueci
A noite aqui há de ser meu por enquanto
Mas eu te amo
Vou me deitar mais uma vez calado
Mais uma vez aquietar o meu pecado
Naquele quarto
Um eco estranho?
Me entranho
É que eu te amo.

 

(Mist)