Jornalista gratinada

“Autora de dez livros tranca jornalista em forno especial para cerâmica, após revelar que seus textos eram plágios de blogs pouco acessados”. (Barneveldse Krant – Jornal Holandês)

 

Glu, glu, glu, glu – mais um gole de café e eu passarei a próxima semana em claro. Por que todo escritor que vou entrevistar tem mania de me empurrar cafeína? Algo que preciso descobrir mais tarde…

– Deixe-me desligar esse ventilador para que você possa me ouvir melhor.

– Ah, gentileza sua, mas posso ouvir-te muito bem, não se preocupe. – respondi, forçando um sorriso.

– De qualquer modo essa coisa girando me incomoda, faz um tempo que meu marido não limpa isso, não é pra menos que tem uns bolinhos de pó voando em sua direção…

Tentei conter uma expressão de nojo, e me vi vesga olhando para uma poeira cinza na ponta do meu nariz. Ajeitei-me na poltrona.

– Já que a senhora tocou no assunto, por que não me conta como é o envolvimento do seu marido na produção dos seus livros? – perguntei, ligando o gravador.

– Aquela coisa gorda? Pff, aquilo ali só serve para ocupar a cama. Se não fosse pela minha força de vontade, não conseguiria escrever um livro sequer! Como escrevo de madrugada, o velho vive reclamando da luz acesa. Viro para ele e só com um gesto faço ele calar a boca, devo isso a educação da minha mamãe querida, aquela lá calava até galo ao amanhecer.

Galo ao amanhecer? Que merda de piada é essa?

– Hm, entendo. E seus filhos, qual a participação deles na sua vida profissional? – continuei, mantendo a pose.

– Uma participação muito importante eles têm… ficar berrando no meu ouvido que estão com fome até que eu encho o saco e vou lá dar alguma gororóba para eles. Vou te falar minha querida, isso aí torra a paciência. No fim do dia é só grito aqui em casa, eu com a “chinela” correndo atrás das pestes e o meu marido na cama babando vendo aqueles programas de auditório. É, minha vida é muito difícil, não é porque sou autora de bestseller que minha vida é tipo best também, não é assim não.

– Nossa, e com tudo isso a senhora ainda tem tempo para escrever mais de dez livros!? – fingi estar fascinada.

– Claro, tem que ganhar dinheiro de algum jeito né, e já que não sirvo pra faxina e nem terminei a escola, o que me resta é escrever alguma coisa no word que já vem com corretor e rezar pra editora do meu pai divulgar bem o meu livro.

– A editora que publica seus livros é do seu pai!? – perguntei surpresa, esquecendo de continuar mantendo a pose profissional.

– Por que o espanto, minha filha? Que outra editora iria publicar os meus livros senão a da minha família? Vou te confessar uma coisa que você pode cortar da entrevista tá?

– Tá… – meus olhos saindo de órbita nesse momento.

– O segredo do sucesso é passar a madrugada toda procurando blogs de criancinhas que escrevam bem, registrar os textos delas no seu nome antes que elas façam isso, dar uma adaptada e pronto, tá aí o bestseller! Tiro e queda!

– É isso que a senhora faz? – minha cara de espanto valia uma foto.

– Bom, foi assim com os meus nove livros. O último eu convenci minha filha a escrever em troca de comida.

– Que horror! – quase berrei.

– Horror é essa sua blusinha aí, que isso, nunca ouviu falar em blusa neon não? Dá um banho nesse teu terninho beje aí.

– Olha, acho que já tenho material o bastante para a minha reportagem, vou indo… – falei, me levantando.

– O que? Você achou que depois de tudo isso que eu te contei vou deixar você sair daqui? Vem cá docinho!

– Que isso, me larga!

– Isso é você indo direto para o forno, como eu disse, meus filhos tem fome, e hoje você é a nossa janta!

Glu, glu, glu, glu – mais um pingo de azeite e vou ser frita em vez de assada.