Aconteceu comigo

Perdi a conta de quantas vezes escrevi e apaguei esse texto. Não sei por onde começar, não sei nem se devo começar alguma coisa. É tão difícil para mim expor essa dor, porque insisto em querer aparentar ser forte, indestrutivel. Quem lê meus textos sabe que por dentro dessa casca existe uma menina extremamente sensível, e mesmo que eu tente esconder meus pontos fracos, não posso. Eu sou sim uma peça frágil, eu me machuco e choro com facilidade, eu me importo com o que dizem, pensam e falam. Me importo extremamente com o que os outros sentem, e na maioria das vezes, tento fazer todo mundo feliz, mesmo que isso signifique estar triste. Eu acredito no amor, mesmo que ele tenha me feito sofrer inúmeras vezes. E com todos os motivos para desacreditar, eu ainda acredito, eu ainda busco. Sonho em encontrar o amor da minha vida, aquele com quem vou dividir o resto dos meus dias, aquele que vai me dar todo o amor que eu mereço. E nessa busca eu tropeço nas piores pessoas. Até hoje eu achava que tinha poder sobre o meu corpo, afinal ele é meu. Entrei pra essa briga pelo direito das mulheres e pensava que entendia o que era ser violentada. Espalhava por aí o quanto somos fortes, o quanto temos o poder de dizer não, de nos defender. Dizia, não se sinta culpada, a culpa é dele não sua. Mas eu não sabia o quanto era difícil não se sentir assim. Não sabia que a culpa podia consumir, e que a minha força nunca seria suficiente quando eu estivesse por baixo, quase nua. Então sim, hoje escrevo para dizer que meu corpo, minha alma, meu coração, foram violentados. Hoje eu escrevo por todas as meninas que não tem coragem de escrever, por todas as meninas que não tem para quem correr, para quem contar. Por todas as meninas violentadas por um estranho, por um amigo, por um namorado, por um parente. Porque não importa quem foi, não importa de onde veio, nunca estamos seguras. Uma mulher nunca pode confiar totalmente em um homem. Hoje eu escrevo para dizer que compartilho dessa dor, dessa culpa, dessa confusão. Desse descontrole. Escrevo para dizer que confiei na pessoa errada, e que nem isso é minha culpa. Sim, eu já o conhecia faz tempo. Sim, eu o beijei. Sim, eu me envolvi. Sim, eu fui para a casa dele. Sim, eu sabia que poderia rolar sexo. Não, eu nunca permiti que ele não colocasse a camisinha. Não, eu não queria que ele penetrasse mesmo assim. Não, eu não queria que ele continuasse. E não, eu nunca quis que ele me machucasse. Mas naquele momento, pedir para parar não o parou. Toda a força que eu achei que tinha sumiu, e eu só chorei. Chorei por mim e por todas que já estiveram em meu lugar. Para ele, foi fácil pedir desculpas. Para mim, não vai ser fácil desculpar. Porque não existe motivo nenhum para um homem tocar uma mulher mesmo quando ela diz não. Não importa se ela está na cama dele, ela não pertence a ele. Ela nunca vai pertencer.

A cada 4 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. 50 mil mulheres são estupradas por ano. De quem é a culpa?

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