É muito estranho não te ter aqui

Já faziam muitos anos que não passávamos mais o natal com vocês, e mesmo assim não deu para não sentir falta de ti na noite de hoje. É estranho pensar que nesse momento tu não está em algum lugar de Porto Alegre comendo a ceia enquanto tomas o teu vinhozinho e que mais tarde vamos te ligar para desejar feliz natal. É estranho toda vez que penso que nunca mais eu vou te ver. Estranho e triste, doloroso. Não me acostumei com a última imagem que tenho de ti e acredito que nunca vou superá-la. Porque ainda não parece real. Vivi minha vida inteira longe, mas com a segurança de saber que mesmo longe tu estava aqui. Hoje eu só sinto um vazio enorme, um medo do que está por vir.

Eu nunca soube bem porque a Gianna adulta não gostava tanto de natal. Hoje eu sei. A Gianna adulta parou de gostar de natal quando vocês nunca mais estiveram aqui para comemorar com a gente. Que graça tem o natal sem o Nono, a Vó Neide e a Lizete? Vocês tornavam o natal real, especial, de verdade. Sem vocês, não parece natal. Sem ti, hoje não pareceu natal. Sem ti, nada mais vai ser igual. Eu ainda vou entrar no teu apartamento e te procurar em cada cômodo e esperar de alguma forma te encontrar. Eu ainda vou esperar teu telefonema no dia do meu aniversário. Porque não, o meu Nono não pode ter ido. O meu Nono era invencível.

Eu não sei como acabar esse texto, porque não sinto que ele possa ter um fim, assim como aquela história que te prometi acabar e nunca acabei. Acho que algumas coisas devem ficar para sempre inacabadas. A vida, apesar de ter um final, nunca realmente termina. Tu, para mim, é imortal. E vamos deixar as coisas assim.

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Quando você se foi chorei

Mais uma vez dói. É um aperto e uma falta de ar que se misturam com esse amargo que sobrou dos teus beijos. Esse amargo que nossas músicas me inundam quando me fazem lembrar de que foi tudo rápido demais, de que eu caí no reggue do teu sorriso e no eletrônico dos teus olhos, e me perdi. Olhar o mar agora me faz lembrar você, porque foi contigo que eu dividi a imensidão azul. Noite fria, você quente. Te abracei como fazia tempo não abraçava alguém e a gente ficou lá por algumas horas só sentindo o carinho do outro. Eu sabia que não iria durar. O destino insistiu na gente, mas teu coração sempre foi de outra, e o meu, tão sem dono, hoje é de qualquer um. Nem sobraram restos de você, nem sei qual é o teu cheiro. Você com certeza ja tirou os meus cabelos da sua cama e a arrumou para a próxima da fila. Assim, como se eu tivesse sido nada. Eu sou é fadada. Fadada a sofrer de amor. Mesmo quando nem é amor ainda. 

E agora, o que acontece? Você se vai, você me esquece.

Passado

A vida é mesmo linda, é mesmo imprevisível, é engraçada… Senti vontade de escrever porque uma situação péssima me levou a um dos momentos de mais aprendizado que já tive, explico: eu tava puta porque meu computador está cheio de vírus, e já que parece que ele vai morrer a qualquer momento, peguei meu HD externo para salvar o que tenho no meu computador e não correr o risco de perder nada. Acabei abrindo algumas pastas antigas salvas no HD e foi uma explosão de passado, nostalgia, alegrias. É bizarro olhar fotos antigas, para mim sempre o primeiro pensamento é “nossa como eu era gorda”, ou “nossa, meu cabelo era legalzinho”, e por eu ser uma pessoa que gosta de registrar tudo e guardar tudo para sempre, tenho fotos de quase todos os momentos da minha vida. Foi tão especial reviver esse passado, mas o mais importante para mim foi perceber que o tempo e os acontecimentos ao longo da vida vão apagando nossas memórias e que nós tendemos a lembrar mais das coisas ruins. Sim… sabe aquele relacionamento que terminou da pior forma possível e que quando a gente relembra só consegue pensar em como não foi certo, em como foi ruim, sofrido? Porque essa é a última lembrança que eu tenho disso e é a que ficou mais forte. Mas, olhando as fotos eu dava risada, dava risada lembrando de momentos engraçados e felizes que vivemos e então me dei conta de que eu tinha esquecido o quão bom foi estar ao lado daquela pessoa naquela época. Para mim foi sempre muito mais fácil pensar em tudo o que não fizemos, em tudo o que não vivemos, e desse jeito parecia que no fim só sobravam coisas ruins, arrependimentos. Como eu posso comparar o que eu tive há tanto tempo com o que eu tenho agora? Nunca vai ser comparável, porque hoje eu sou uma pessoa diferente de quem eu era. Eu vivo coisas diferentes, eu penso de forma diferente, eu procuro pessoas diferentes. Eu cresci. Mas isso não quer dizer que as coisas que passaram não foram boas, não foram importantes, porque para aquela época elas eram perfeitas, a pessoa era perfeita, nós éramos perfeitos. Hoje eu entendi que a melhor coisa do mundo é mudar, é seguir outros caminhos, conhecer outras pessoas, mas tentar sempre preservar as boas memórias e não as mais recentes. Não importa o jeito que acabou, importa tudo o que foi vivido e aprendido. Eu vivi um monte de coisas que acabaram e eu me apegava em achar que só porque essas coisas não se encaixam mais na vida que tenho hoje, elas não me fazem feliz, mas fazem. Fazem parte de quem eu sou, de quem me tornei e de quem eu ainda vou me tornar, e ainda me arrancam sentimentos bons. Não tem porque ficar apegado às más lembranças, elas existem e fazem parte, mas o que foi bom sempre vai ser mais importante para nos darmos conta de que valeu a pena e de que a vida segue, e ela segue diferente, nunca do jeito que um dia foi. Coisas terminam, coisas começam. O melhor é que elas existem e nunca vão deixar de existir.

E então aprendi que o que eu tenho de mais valioso está em um HD.

Disse um adeus definitivo

Deixa eu te contar, menina, que eu também chorava assim como você, com o rosto abafado no travesseiro, com as lágrimas molhando o lençol e com o responsável por elas dormindo ao meu lado. Tinha esse aperto constante no meu peito, que eu não sabia se era tristeza ou medo. Medo de perdê-lo. Talvez eu já soubesse que o havia perdido… a gente dividia a cama, mas não dividia os dias. Eu sentia falta dele todos os instantes, mas ele esquecia de me dizer boa noite, de contar o porquê de ter sumido a tarde inteira. Aos poucos eu sei que fui perdendo o meu espaço na vida dele, no coração dele, na cama dele, até que ele me esqueceu para sempre. Nem sei te dizer quantas vezes eu voltei para casa e ia chorar no banho de saudade, ou só de angústia. Nem sei te dizer quantas vezes procurei por ele em outros olhos e me quebrei por nunca achá-lo. Não sei te dizer quantas recaídas eu tive, de desejar voltar no tempo, de desejar ter tudo de novo. Até hoje eu falo dele para os outros, lembro dos nossos momentos com brilho nos olhos, mas também com uma dorzinha no peito – nem tudo foi lindo, nem tudo foi perfeito. Não sei te dizer, também, quando tudo isso passou. Se eu levantei um dia curada, ou se meu coração se juntou sozinho, mas de repente ele me parecia apenas um estranho. Todas as coisas que vivemos também pareciam estranhas. Eu era uma completa estranha. E em meio a todos esses estranhos, só uma coisa me parecia familiar: aquele adeus definitivo.

Então saiba, menina, que a vida é cheia desses. Que se teu coração já se sente às vezes sozinho, é porque alguém está indo embora. E no fim, todos irão. As pessoas não foram feitas para ficar, elas foram feitas para ir. Deixe ir. Porque de adeuses definitivos, surgem olás reconfortantes. Conhecidos se tornam estranhos, e estranhos se tornam conhecidos.

Já faz tempo

Já faz tempo e eu ainda me pergunto  o por quê de não ter te abraçado todas as vezes que eu pude, quando você ficava parado me olhando bravo e a gente ficava em silêncio com medo de falar. Já faz tempo e eu ainda me arrependo das brigas que insisti, do orgulho que guardei, da superioridade que fingi, de tudo aquilo que te fiz ou deixei de fazer. Você continua aqui mesmo sem estar, e sei lá, talvez seja assim para sempre. Todos os dias eu penso no que eu fui e no que eu poderia ter sido, e toda vez o fim é o mesmo. Aquele que a gente já conhece, que a gente já viveu milhões de vezes, e que eu viveria mais um bilhão se pudesse. Não consigo mudar o impacto que tu tem em mim, a dor que vem, a saudade que nunca sai, o riso frouxo, a dor de barriga, o bater enlouquecido do coração. Você é muito mais que sentimental, você é físico. E o mais louco é: teu físico não me pertence. Provavelmente teu sentimental também não. 

Mas eu ando por aqui, ainda te vendo em todos os lugares, ainda fazendo listas do que te dizer, ainda querendo um espaço em ti. Não penso na gente no futuro, sempre no passado, por isso acho que nunca mais vamos nos ter, mas revivo cada dia ao teu lado para nunca esquecer que eles foram os melhores. Já faz tempo, mas foi ontem. Foi ontem que te dei o último abraço.

Aconteceu comigo

Perdi a conta de quantas vezes escrevi e apaguei esse texto. Não sei por onde começar, não sei nem se devo começar alguma coisa. É tão difícil para mim expor essa dor, porque insisto em querer aparentar ser forte, indestrutivel. Quem lê meus textos sabe que por dentro dessa casca existe uma menina extremamente sensível, e mesmo que eu tente esconder meus pontos fracos, não posso. Eu sou sim uma peça frágil, eu me machuco e choro com facilidade, eu me importo com o que dizem, pensam e falam. Me importo extremamente com o que os outros sentem, e na maioria das vezes, tento fazer todo mundo feliz, mesmo que isso signifique estar triste. Eu acredito no amor, mesmo que ele tenha me feito sofrer inúmeras vezes. E com todos os motivos para desacreditar, eu ainda acredito, eu ainda busco. Sonho em encontrar o amor da minha vida, aquele com quem vou dividir o resto dos meus dias, aquele que vai me dar todo o amor que eu mereço. E nessa busca eu tropeço nas piores pessoas. Até hoje eu achava que tinha poder sobre o meu corpo, afinal ele é meu. Entrei pra essa briga pelo direito das mulheres e pensava que entendia o que era ser violentada. Espalhava por aí o quanto somos fortes, o quanto temos o poder de dizer não, de nos defender. Dizia, não se sinta culpada, a culpa é dele não sua. Mas eu não sabia o quanto era difícil não se sentir assim. Não sabia que a culpa podia consumir, e que a minha força nunca seria suficiente quando eu estivesse por baixo, quase nua. Então sim, hoje escrevo para dizer que meu corpo, minha alma, meu coração, foram violentados. Hoje eu escrevo por todas as meninas que não tem coragem de escrever, por todas as meninas que não tem para quem correr, para quem contar. Por todas as meninas violentadas por um estranho, por um amigo, por um namorado, por um parente. Porque não importa quem foi, não importa de onde veio, nunca estamos seguras. Uma mulher nunca pode confiar totalmente em um homem. Hoje eu escrevo para dizer que compartilho dessa dor, dessa culpa, dessa confusão. Desse descontrole. Escrevo para dizer que confiei na pessoa errada, e que nem isso é minha culpa. Sim, eu já o conhecia faz tempo. Sim, eu o beijei. Sim, eu me envolvi. Sim, eu fui para a casa dele. Sim, eu sabia que poderia rolar sexo. Não, eu nunca permiti que ele não colocasse a camisinha. Não, eu não queria que ele penetrasse mesmo assim. Não, eu não queria que ele continuasse. E não, eu nunca quis que ele me machucasse. Mas naquele momento, pedir para parar não o parou. Toda a força que eu achei que tinha sumiu, e eu só chorei. Chorei por mim e por todas que já estiveram em meu lugar. Para ele, foi fácil pedir desculpas. Para mim, não vai ser fácil desculpar. Porque não existe motivo nenhum para um homem tocar uma mulher mesmo quando ela diz não. Não importa se ela está na cama dele, ela não pertence a ele. Ela nunca vai pertencer.

A cada 4 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. 50 mil mulheres são estupradas por ano. De quem é a culpa?

Não quero te dizer adeus, mas preciso

Eu sabia que iria doer, que a tua imagem naquela cama quebraria todas as barreiras dentro de mim. Eu me renderia, eu me rendi. Mas prendi o choro porque todo mundo estava tentando ser forte, preciso ser forte também. Te olhando ali, milhões de imagens invadiram minha mente, consegui te ver acordada, feliz, morena, vi seu sorriso e lembrei da tua voz que eu já não escuto faz tempo. É engraçado como certas lembranças tuas sobressaem outras, lembranças de momentos tão singelos, que de relance não possuem nenhum significado especial, mas que hoje vieram para me encher de amor e saudade. A sua mão continua a mesma, com a mesma cor e as mesmas pintas, com a mesma textura, as mesmas ruguinhas. Mas seu rosto mudou, seus olhos que não abrem, e quando abrem involuntariamente, mostram um olhar perdido, um olhar sem vida. Seu corpo estava ali e mesmo sem fazer nenhum som eu ouvi você gritar, eu ouvi você pedindo para partir. Você quer ir descansar, você cansou de lutar. Chega de dor, chega de prolongar o fim, você quer voar pro céu azul, ser recebida pelo sol, e fazer festa com os anjinhos. 

Ninguém quer te dizer adeus, mas todo mundo sabe que é tua hora de partir. O amor não acaba, ele vai contigo e fica aqui com a gente para sempre, porque tu é eterna. 

Vai vó, pode ir. Tem um lugar lindo te esperando.